REFLEXÃO BANIWA SOBRE QUESTÃO INDÍGENA NO CONTEXTO DO GOVERNO BOLSONARO

Destacado

Este texto escrito por mim  André Baniwa que foi lido na assembleia extraordinária da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro que aconteceu no período de 14 a 16 de março de 2016 na comunidade de Ilha de Duraka, próximo ao porto de Camanaus no município de São Gabriel da Cachoeira – Amazonas.

Visa refletir sobre a questão central indígena que é a terra, que criador deixou como principal palco para todos os homens do planeta-terra, pois sem ela não se tem lugar para pisar, nenhum homem e nenhum ser vivem no ar ou no vazio. Imaginemos nós que vivemos há milênios nesta terra antes que fosse hoje chamada Brasil.

Outros, os europeus, aqui chegaram dizendo: vocês são animais selvagens, não tem alma, desconhecidos por Deus, sem roupa, e do nada começaram dar nome ao lugar, mais nome, mais outro nome que não tinha nada a ver com nome que se conhecia há milênios pelos povos indígenas, hoje pelo direito reconhecidos como povos nativos ou originários.

Culturalmente essa é a forma de chegar a terra ou na casa de alguém? Que tipo de gente pensa e age assim? Você já pensou no significado dessa forma dos estrangeiros chegar às nossa terra e que continua assim dessa mesma forma depois de mais de 518 anos?

Os europeus que aqui chegaram ao Brasil eram aquelas pessoas que procuravam riquezas para levarem as suas terras. Esta é a razão deles de terem essa visão e ação de ver tudo e aproveitar para si o que é dos outros. Imagino que fizeram primeiro diagnóstico concluindo que os índios não sabiam de nada da cultura mercantilista ocidental e se aproveitaram disso. E tomaram terras dos índios e mais terras dos índios. Mataram índios e mais índios mataram para dominar as terras dos outros, dos índios para se enriquecerem, mais e mais. Quando conseguiram, implantaram projeto definitivo: criaram um ESTADO NACIONAL para dominar de vez e governar para eles mesmos, não para os índios, não para os pobres! Eles gritaram um para outro: vamos transformar índios em escravos e vamos buscar mais outros escravos pretos e vamos construir toda riqueza aqui para nós, os comemoravam, e assim fizeram até hoje, se quer saber!

Neste período de colônia e Estado Nacional do Brasil, o que aconteceu com povos indígenas? Eles aumentaram de população? Deveria, não é, é lógico que sim! Mas ao contrário os povos indígenas diminuíram de milhões para centenas somente. De autônomos para escravizados e tutelados. De cheio de terras para sem terras. De cheio de ensinamentos para esvaziamento de seus conhecimentos e muito forte branqueamento. De ricos culturalmente para cultura totalmente desmatada. De organizados cultural e milenarmente para derrotados, desorganizados. E etc.

Apesar de tudo, se não fosse o fruto da luta de muitos líderes indígenas que doaram as suas vidas, não existiríamos mais hoje, diminuídos, mas existimos, não somos mais milhões como antes, mas voltamos a crescer novamente que corresponde com os direitos conquistados na última promulgação da Constituição da República Federativa do Brasil, 5 de outubro de 1988.

O destino que nos esperava ditado pelo Estado Brasileiro era o fim dos povos indígenas neste Brasil controverso, a data prevista era para que nenhum indígena existisse mais neste novo milênio, neste século XXI. Você consegue imaginar que tipo de gente, que tipo de ser humano veio colonizar e nacionalizar esta terra continental dos povos indígenas? Você acha que eles vieram para ajudar? Que eles vieram para amar gentes nativas desta terra? Gente amiga, parenta ou parceiro consegue pensar assim do seu próximo? Que tipo de gente ou ser humano consegue pensar assim? Qual é a função exata de um Estado Nacional com sua nação?

Depois de direitos fundamentais conquistados na Constituição Federal de 1988, novamente estamos vivendo história onde os dirigentes do Estado Nacional Brasileiro quer destruir com todos os direitos indígenas sempre com os mesmos argumentos desde lá de tal de descobrimento do Brasil. Eles não souberam gerir ou manejar as terras que tomaram dos povos indígenas. Para eles quanto mais desmatar é melhor, é mais riqueza, mais significado de trabalho para eles. Quem não desmatar como eles, eles acham que é preguiçoso, que tem muita terra improdutiva, que todo isso é impedimento ou barreira para desenvolvimento e tal de progresso que tantos defendem. Parece que o objetivo ou função social principal do Estado Brasileiro é ficar rico poderoso mais que os outros, ou seja, não se foca no bem-estar da sua nação, não tem nada de buscar bem viver do seu povo.

O governo atual é dos contra aos direitos indígenas, durante sua vida toda vem pensando e falando contra; durante a campanha toda vem declarando que é contra os povos indígenas; e iniciou seu governo esquartejando a gestão de política indigenista do Estado Brasileiro, é uma bagunça para inviabilizar os direitos indígenas; quer se livrar da questão indígena propondo municipalizar saúde indígena que não vai funcionar; quer liberar as terras indígenas para arrendamento aos empresários de agricultura; quer liberar as terras indígenas para exploração de riquezas minerais sem consultar indígenas ou sem que a consulta direcione qualquer projetos. Todos e todas sabem que isso é um agir do presidente da república, que é sempre inconstitucional!

Desta forma só dá para concluir que ele é inimigo número 1 dos povos indígenas, ele não é governo do Brasil, ele é inimigo da nação Brasileira como todo. Um governo que visa bem estar da sua nação não agiria como está fazendo que seja desconstruir “as politicamente corretas” onde estamos inseridos, ele quer políticas incorretas ou inconstitucionais; o lema da sua campanha e de seu governo é falso-verdadeiro e verdadeiro-falso que soa bem para alguns, mas é uma pegadinha de destruição na nação brasileira.

O que fazer? Como fazer? Qual estratégia? Pensem e tomem suas decisões para garantir as futuras gerações como fizeram os nossos antepassados que garantiram o nosso presente de hoje. A coisa está na sua mão!B612_20160121_204934