PESQUISAS DE NOVAS TECNOLOGIAS SOCIOAMBIENTAIS PARA BEM VIVER: EXPERIÊNCIAS NAS COMUNIDADES BANIWA DO MÉDIO RIO IÇANA E AYARI

Destacado

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Inauguração de abastecimento de água na comunidade Santa Isabel do Rio Ayari por meio de tecnologia Carneiro Hidráulico – na terra indígena Alto Rio Negro

Juvêncio Cardoso (Dzoodzo)[1]

Adeilson Lopes – Ecólogo/ISA

O que vamos contar aqui é apenas parte das pesquisas e experiências que desenvolvemos na região do médio rio Içana e Ayari, dedicadas especificamente ao que chamamos de tecnologias socioambientais. Estas pesquisas visam prospectar, experimentar e/ou adaptar tecnologias que melhorem a qualidade de vida das pessoas nas comunidades. Nas terras indígenas do médio e alto rio negro habitam uma enorme população indígena. O Levantamento PGTA realizado por ISA/FOIRN/FUNAI em 2017 apontou mais de 5mil famílias de moradores, de maioria composta por crianças e jovens (70%), vivendo em cerca de 350 comunidades. Todas elas demandam, cada dia mais, tecnologias que sejam acessíveis economicamente, adaptadas às condições de pequenas comunidades imersas na extensa região coberta por florestas e que sejam apropriadas do ponto de vista ambiental e cultural para a população. As experiências aqui narradas são desenvolvidas por meio de iniciativas das comunidades, escolas e associações em parceria com a FOIRN e ISA.

Atualmente, duas linhas de pesquisa e experimentação vem sendo fortalecidas: 1) geração de energia elétrica; 2) abastecimento de água; e 3) construção em placa de taipa.

A geração de energia elétrica

A pesquisa de alternativas de geração de energia elétrica iniciou na escola Pamáali, desde 2002, quando foram instalados três tipos de fontes de geração para aumentar e melhorar sua matriz energética. Os modelos testados foram de motores movidos à combustível fósseis (gasolina e diesel), sistema fotovoltaico (placa solar e bateria) e sistema hidrocinético (micro-turbina movido pela água).

A experiência com motor movido à gasolina foi ótima, mas o custo de abastecimento e manutenção é caro. O motor que funciona com diesel foi adaptado, em 2009, ao sistema híbrido de biocombustível (ou seja, usando diesel e óleo de soja reciclado da cidade). Ele funcionou muito bem usando óleo de soja descartado de restaurantes. Porém, não conseguimos manter um sistema de coleta de óleo nas cidades de Manaus e São Gabriel para abastecer este motor. Assim, o sistema com óleo vegetal foi abandonado e o motor continuou funcionando com diesel.

A experiência com o sistema fotovoltaico foi mais efetiva e eficiente em termo de geração de energia, pois dependia basicamente do sol como fonte de alimentação. Mas, o difícil foi fazer a gestão adequada do sistema. No caso específico da escola, o consumo de energia era maior do que a gerada pelo painel e a falta de controle resultou em desgaste precoce das baterias, que duravam em média 1 ano.

Outras experiências particulares com sistema fotovoltaico apontam que o sistema é eficiente, quando se realiza uma boa gestão. Utilizando a energia dentro do limite gerado pelo painel. Um sistema composto de 2 painéis solares com duas baterias, por exemplo, utilizando um inversor de 500W, é suficiente para alimentar 4 lâmpadas de 18W no tempo de 4h/dia, uma TV pequena de 15” de 20W e um computador notebook. A vida útil das baterias nessa condição é de 3 anos.

No âmbito do Projeto Monitoramento Ambiental e Climático – PMAC, os coordenadores indígenas estão recebendo um kit de sistema fotovoltaico (um painel solar, duas baterias, 1 inversor e três lâmpadas de 12 V). O objetivo é apoiar as suas atividades de pesquisa para fornecer energia para iluminar seu local de trabalho, carregar tablet e computador notebook.

Ao final de 2011, com o apoio do Fundo de Micro-Projetos Mudanças Climáticas da CAFOD, pudemos dar início à instalação e aos testes de geradores hidrocinéticos na escola Pamáali. Foi uma experiência ímpar de eficiência, mas que durou por pouquíssimo tempo. Demorou pouco tempo devido ao local de instalação, pois a barragem de terra e o canal de alimentação do sistema foi tomado pela erosão, devido ao solo arenoso, obrigando a desativar o sistema. As microturbinas, 1 kVA e 0,5 kVA, foram remanejados para a comunidade de Nazaré, onde foram instaladas numa barragem de concreto já existente nesta comunidade. Funcionaram bem por alguns anos, gerando energia durante 24 horas com a força da água. Atualmente o sistema está desativado porque essas turbinas usam um controlador de carga que foi danificado e não possui reposição no Brasil. Essas turbinas foram importadas pelo ISA em 2008 do IMS-RERC–VSED (um consórcio de pesquisa e desenvolvimento de tecnologias alternativas de geração de energia do Vietnam), portanto do outro lado do mundo. O modelo parece ser uma alternativa bem interessante entre as já experimentadas, e se aproxima do ideal de geração de energia limpa e de autonomia para as comunidades. Mas, sem um fornecimento da tecnologia e dos itens de manutenção a nível regional, não é possível aprofundar os testes.

Outro projeto “Roda d’água” está em incubação e poderá ser testado nos próximos anos. A ideia é que este projeto seja testado nos locais onde a correnteza (velocidade) da água é mais elevada, como é o caso de Nazaré, Tunuí, Escola Pamáali e Ucuqui Cachoeira. Outras comunidades possuem a ideia de testar roda d´água no igarapé, através de construção de pequena barragem para formar desnível e assim poder aproveitar a energia mecânica.

O quadro baixo mostra a atual situação de motor de geração de energia na região do Içana. Esses dados foram obtidos dos Resultados do Levantamento Socioambiental, a partir do Relatório de trabalho para elaboração dos PGTA do Alto e Médio Rio Negro. O que chama atenção nesse quadro é o número de geradores familiares.

Motor de luz na região do Rio Içana

Região Funcionando Quebrado Sem motor de luz Nº de geradores familiares
Ayari 3 1 12 36
Alto Içana 0 0 13 46
Baixo Içana 6 2 5 62
Médio Içana 12 1 8 56
Total 21 4 38 200

Fonte: ISA, FOIRN, FUNAI/ maio de 2017.

Outras fontes de energia na região do Içana

Região Comunidades Comunidades onde há outras fontes de energia
(%)
Ayari 16 3 19%
Alto Içana 13 9 69%
Baixo Içana 13 6 46%
Médio Içana 21 7 33%
Total 63 25

Fonte: ISA, FOIRN, FUNAI/ maio de 2017.

Abastecimento de água

Para bombeamento de água estamos testando duas tecnologias socioambientais: 1) Sistema Carneiro Hidráulico e; 2) Sistema com Placa Solar.

O sistema Carneiro Hidráulico requer uma pequena represa de água e bombeia a água que passa por ele sem a necessidade de usar motor ou queimar qualquer tipo de combustível. No ano de 2013 foram feitos os primeiros testes na escola Pamáali, aproveitando a represa que abastecia o laboratório de piscicultura.  No ano de 2014 o sistema foi consolidado e passou a abastecer as casas residenciais na comunidade/escola e a Casa da Pimenta Pamáali.

No ano de 2017, este modelo foi instalado na comunidade de Santa Isabel no rio Ayari, sob interesse e iniciativa da própria comunidade em parceria com ISA. O ponto de bombeamento, a fonte/represa, fica numa distância de 350m de ponto de instalação de caixas da água. A base de caixas é suspensa a uma altura de 3m. A partir desde ponto a água é distribuída para a comunidade. Este sistema abastece em torno de 4.500 litros/dia. Esse modelo vem sendo considerado ideal para as comunidades, pois o custo de funcionamento e manutenção muito baixo, apenas a substituição de algumas peças simples, que podem ser encontradas no comércio local. Outras comunidades já manifestaram interesse para implantar esse modelo.

O sistema de bombeamento de água movido com placa solar está sendo testado na Rede de Casas da Pimenta Baniwa. A experiência está na fase inicial de implementação. E espera-se que este se apresente como uma das alternativas possíveis a ser implementado nas comunidades.

No caso específico, este modelo está dando certo na comunidade de Ambaúba, médio rio Içana. E foi instalado em parceria com os pastores não-indígena que atuam na comunidade.

Construção com Placas de Taipa

Esta tecnologia surgiu durante o processo de elaboração do projeto arquitetônico das Casas da Pimenta Baniwa e a primeira oficina de formação sobre a técnica aconteceu na Escola Pamáali no ano de 2009. Foi proposta pelo arquiteto Almir de Oliveira (EAMAC/Arquitetura da Terra) como uma solução construtiva que reúne aspectos importantes em uma obra como: beleza, estabilidade, uso sustentável dos materiais de construção tradicionais baniwa (madeira e argila). Os baixos custos de construção são uma grande vantagem desta tecnologia.

A técnica básica consiste em montar painéis de madeira pré-moldados que são reunidos no formato da casa. O trabalho de montar as paredes de uma casa da pimenta, depois que os painéis estão prontos, não dura mais que um dia. Depois dos painéis montados é feito o barreamento, como tradicionalmente os baniwa já conhecem, e o acabamento da parede leva apenas 01 centímetro de uma mistura composta por: 5partes de areia, 3 partes de barro e 1 parte de cimento.

A primeira casa foi construída em Tunuí cachoeira e inaugurada em 2013, e de lá para cá a técnica vem sendo aperfeiçoada, resultando em casas com boa estabilidade e acabamento, sem uso de tijolo e usando pouco cimento. Neste momento já existem 04 casas construídas neste padrão no Içana (Tunuí, Pamáali, Ucuqui e Canadá) e outra está em início de obra na comunidade de Nazaré. Vários grupos de construtores baniwa vem ganhando experiência com esta tecnologia de construção e, futuramente, poderão aplicar estes conhecimentos em outros tipos de obras como escolas, residências particulares, pólos-base, dando mais autonomia para tocar obras nas comunidades da região.

Enfim, são algumas das experiências que desenvolvemos no âmbito pesquisa de novas tecnologias socioambientais para o bem viver. Com experiências aos poucos vão sendo testado e com a experiência vamos aprendendo. Outras áreas também precisam avançar, como: tecnologias para coleta e tratamento de lixo (que já se acumula nas comunidades), tecnologias para transporte coletivo ou individual que dispense ou reduza o consumo de gasolina e tecnologias de comunicação e de processamento de produtos das comunidades para a comercialização (desidratadores de frutas, por exemplo). Há muito o que avançar!

O que depende é interesse, a decisão e boa vontade da comunidade, das nossas escolas e associações. Se as nossas comunidades, escolas e associações não tiverem planejamento de como melhorar em termos de empregos de tecnologias socioambientais poucas coisas vamos avançar. Não podemos esperar que alguém vai fazer por nós, tudo cabe a nós próprio e sempre parceria com os nossos parceiros de longa data.

[1] Licenciado em Física Intercultural/IFAM-CSGC. Professor na Escola Municipal Indígena Tiradentes e Sala de extensão de ensino médio Canadá, rio Ayari. Coordenador de Coordenadoria das Associações Baniwa e Koripako da bacia do Rio Içana – CABC

A Conferência Baniwa e Koripako sobre Educação e Organização Social do Bem Viver no noroeste da Amazônia Brasileira

A Conferência Baniwa e Koripako sobre Educação e Organização Social vai acontecer na comunidade Tunui Cachoeira entre 21 a 24 de Setembro de 2016, na Terra Indígena Alto Rio Negro no município de São Gabriel da Cachoeira, Estado do Amazonas. Os Baniwa e Koripakos estão organizados 83 comunidades e sítios, 11 associações, uma coordenadoria filiadas a Federação das Organizações indígenas do Rio Negro, pertencentes a família linguística Aruak, são mais 6.200 pessoas no Brasil.

1 – Bem-Viver: reorganização social, patrimônio cultural, gestão territorial e ambiental
Porque Conferência do povo Baniwa e Koripako? Esta é uma nomenclatura de evento com que se pretende diferenciar-se dos demais que vem se realizando como assembléias, encontros, seminários e oficinas nos últimos três décadas. É uma conferência autônoma para marcar que vai tratar de uma decisão do povo, neste caso, dos povos Baniwa e Koripako segundo Convenção 169 da OIT. Refere-se também para analisar o tempo, o processo que estes povos vêm desenvolvendo desde 1984, ou seja, nos últimos 32 anos no Rio Negro. O que aconteceu nesse período, ou melhor, o que o povo Baniwa e Koripako conquistou neste período?
A conferência vai avaliar como vem sendo reconstrução do seu Bem-Viver depois de contato com homens Brancos. O Bem Viver culturalmente ou tradicionalmente esse termo tem sido usado constantemente em suas assembléias, encontros, oficinas e etc se referindo aos seus projetos nos últimos tempos, mas também ela é de uso diário em suas vidas e em busca dela tem passado por meio dos seus projetos, atividades, programa e na organização social que vem desde primeira participação da I Assembléia Geral dos Povos Indígenas do rio Negro em 1984.
A criação da primeira associação foi em 1989, extinta em 1999. A segunda associação foi criada em 1992, a partir da qual se organizou mais comunidades em associações. Em 2001 fez se primeira avaliação, avaliava se valia apena estar organizados em associação que foi bastante positiva. No ano de 2002 criou-se uma coordenadoria para melhorar trabalhos das associações. No ano 2014 criou-se Conselho Baniwa e Koripako Kaaly para cuidar da política e gestão do Patrimônio Cultural e forçou entendimento para que este ano em maio de 2016 aprovasse a criação de uma organização representativa.
Com a finalidade de efetivar esta decisão, esta conferência vai discutir e aprovar uma organização representativa do povo Baniwa e Koripako, com nome e eleger sua diretoria executiva que vai elaborar seu estatuto a ser discutido e aprovado em sua primeira assembléia geral. Por isso chamamos de reorganização social Baniwa e Koripako, por que apenas vai fortalecer as associações já existentes envolvendo-as junto nos assuntos maiores de interesse e objetivos do povo.
Esta organização representativa é muito importante para enfrentar os desafios do Patrimônio Cultural, desafios do desenvolvimento sustentável, desafios na implementação do Plano de Gestão Territorial e Ambiental do Içana e afluentes em elaboração. Ela será fundamental para discutir e definir as estratégias de sustentabilidade do povo Baniwa e Koripako.
Além disso, o protocolo de Consulta de consentimento prévio e informado será elaborado através desta organização representativa do povo Baniwa e Koripako como forma de proteção e garantir o bem-viver. Resolverá o principal problema – quem decide pelo povo Baniwa e Koripako? Esta será forma organizada e unificada de decisão das associações e comunidades que em conjunto representará decisões coletivas do povo Baniwa e Koripako.
A organização representativa do povo vem sendo discutido desde ano de 2011 na assembléia na comunidade Tunui Cachoeira. Tem sido a proposta a ser desenvolvido. Depois no ano seguinte na comunidade Castelo Branco no ano de 2012. Na oportunidade de Criação do Conselho também foi lembrado desta necessidade em 2014. Finalmente agora em Maio de 2016 foi aprovado na assembléia para criar esta associação representativa do povo Baniwa e Koripako sob entendimento da garantia da governança sobre território do Içana e afluentes considerando desafios em Patrimônio Cultural, Plano de Gestão Territorial e Ambiental, desenvolvimento sustentável, sustentabilidade, alternativas econômicas, educação, saúde e de modo geral políticas públicas.

2 – Bem-Viver: ensino e aprendizagem nas escolas Baniwa e Koripako
Na década de 70 e 80 o povo Baniwa e Koripako sofreu invasão de suas terras com falsas promessas e exploração de suas riquezas principalmente nos garimpos de ouro que alterou negativamente a vida das comunidades no Içana e afluentes.
Contra invasão e seus impactos negativo, o povo Baniwa através de seus representantes na I Assembléia Geral dos Povos Indígenas do Rio Negro definiram a escolaridade do seu povo como meta em longo prazo a ser perseguido com objetivo de criar diálogo com não indígenas e não serem mais enganado. Esta decisão foi importante, pois na época em comparação com as outras regiões do Rio Negro que já tinham escolaridade avançada e os Baniwa e Koripako não tinham praticamente nada de escolaridade que fizesse ter entendimento melhor da sociedade nacional.
Foi a partir desta decisão política que se lutou para ter mais escolas nas comunidades Baniwa e Koripako, levar professores não falantes da língua Baniwa e Koripako de outras etnias a fim de lecionar nestas escolas. Mas não eram suficientes, aos poucos foram se organizando para conhecer melhor seus direitos quando se tomou decisão política de criar a sua própria escola em 1997. A escola própria começou a funcionar no ano de 2000. Este teve impacto político muito grande no poder público de modo que acelerou mais criação de mais escolas nas comunidades, escolas de ensino fundamental completo, ensino médio com anexos e na atualidade tem mais 4 escolas de ensino médio em processo de busca de reconhecimento no Estado do Amazonas.
A luta do povo Baniwa e Koripako na escolaridade teve virada junto com o novo milênio. Pela primeira vez se tinha professores em magistério indígena, daí vem tendo mais magistério II e III. Atualmente já se tem professores com graduação em cursos interculturais, outros em formação, precisando ainda formação no mestrado e doutorado, além de anualmente ter formaturas de estudantes no ensino fundamental completo e no ensino médio a partir do ano de 2012.
Nos lugares de professores que vinham sendo de outras etnias não falantes Baniwa e Koripako hoje são ocupadas pelos professores das próprias comunidades.
Quando se definiu adotar a escolaridade como um dos que podia ajudar o povo em sua defesa, garantia de melhoria de vida, viver bem, deveria ter sido a considerar os conhecimentos interculturais, que a escola indígena fosse feita na realidade de vida das comunidades que significava em linguagem oficial de escolas profissionalizantes.
A realização desta I Conferencia da educação e organização social do Povo Baniwa e Koripako são muito importantes porque além de reunir diversas personalidades de lideranças de associações, professores, técnicos em agente comunitário de saúde indígena, lideranças comunitárias, conhecedores da tradição e da cultura, mulheres manejadora do sistema agrícola tradicional Baniwa e Koripako Kaaly, vai levar a decisão política do povo reunido sobre novas diretrizes gerais para educação escolar indígena Baniwa e Koripako que promova melhoria e aperfeiçoamento de ensino e aprendizagem de estudantes nas comunidades e nas Escolas. Vai também colocar em prática a decisão da assembléia de Maio de 2016 em criar a organização representativa do povo Baniwa e Koripako.

Programação da I Conferência Baniwa e Koripako sobre educação e organização social para o Bem-Viver
21 a 24 de Setembro de 2016 na comunidade Tunui Cachoeira – Médio Içana

20 de Setembro de 2016
– chegada de participantes na comunidade Tunui Cachoeira;
– abertura a noite com apresentações culturais e discursos sobre expectativas;

21 de Setembro de 2016
Manhã
Palestra sobre temática do Bem-viver, cultura e o patrimônio cultural Baniwa e Koripako.
a) Palestrantes: André Baniwa, Isaias Fontes, Dzoodzo, Thiago Pacheco, Francineia e Madalena;
b) Debatedores Jovens – Dario Casimiro, Plinio Marcos, Genilton Apolinario, Maria Lilane Fontes;
c) Debatedores Idosos da tradição – Fernando Jose, Julio Cardoso, Roberto Paiva, Pedro Francisco, Celestino Benjamim, Chico Davila.
d) Debates em públicos (questionamentos e esclarecimentos).

Almoço

Tarde
– GT para definição dos conceitos Baniwa e Koripako;
– Exposição dos trabalhos de Gts e a sua discussão de consenso;
– Resumo e aprovação dos conceitos

22 de Setembro de 2016
Manhã
Palestras sobre processo histórico da luta
– Os últimos 32 anos de Educação Baniwa e Koripako processo próprio de aprendizagem na educação escolar indígena.
Palestrantes: Andre Baniwa, Dzoodzo
Debatedores – Daniel Benjamim, Isaias Fontes, Horipio Pacheco, Madalena Paiva.

– Palestra sobre experiências Baniwa e Koripako em Desenvolvimento Local Sustentável e empreendedorismo;
Palestrantes: Dzoodzo, Joaozinho, Orlandino Fontes, Genilton Apolinario;
Debatedores: Isaias Fontes, Tadeu Garrido, Ronaldo Apolinario.

– Apresentação dos projetos de Pesquisa de Estudantes e proposta de trabalho da UNIB junto ao povo Baniwa (Estudantes Baniwa e professores UNB);

Tarde
– Relato de experiências de gestão escolar Baniwa e Koripako e sobre ensino e aprendizagem nas escolas (ensino fundamental completo e ensino médio – salas anexos); (Escola Pamãali, Escola Kayaakapali, Escola Eeno Hiepole, Escola Maadzero, Escola Kariama, Escola Barekeniwa)
– Palestra sobre panorama das escolas e ensino nas microrregiões de acordo com atuação dos APIs (Professor API Eliaque Dionisio, Dario Casimiro, Augusto Garcia, Horipio Pacheco, Hilario Fontes e Jaime Lopes);
– Organizar GTs para identificação de avanços, dificuldades e problemas enfrentada na educação escolar Baniwa e Koriako e elaboração das propostas para governos e organização própria.

23 de Setembro de 2016
Manhã
– Trabalho de Grupos de discussão das propostas de diretrizes gerais para escolas Baniwa e Koripako; gestão de educação próprio, do município e do Estado, e; reivindicações para melhoria da educação escolar indígena Baniwa e Koripako com Governo Municipal e com Governo do Estado do Amazonas;
– Apresentação sistematizada dos resultados dos Gts e discussão em plenário;

Almoço

Tarde
– Apresentação do documento final da Conferencia sobre educação escolar Baniwa e Koripako;
– Discussão e melhoria do documento;
– Leitura de documento traduzido em língua Baniwa, Koripako, Ñegatu/Nhengatu/Lingua Geral, Espanhol e Portuguesa
– Aprovação do documento final e assinatura.

24 de Setembro de 2016
Manhã
– Palestra sobre proposta de reorganização do povo Baniwa e Koripako aprovado na assembleia da Cabc
Palestrantes: André Baniwa, Isaias Fontes, Dzoodzo;
Debatedores: os participantes

Almoço

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– Apresentação do rascunho da proposta de estatuto.
– Gts para discussão, melhoria e aprovação da proposta.
– Eleição da Diretoria da organização representativa do povo Baniwa e Koripako;

– Noite: encerramento final com noite cultural

Por André Baniwa – Presidente da Organização Indígena da Bacia do Içana (OIBI)

Reconstruindo o projeto Bem-Viver Baniwa e Koripako

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Reunião de lideranças Baniwa na sede do Instituto Socioambienta, em São Gabriel da Cachoeira. Foto: Ray Benjamim

Lideranças Baniwa, membros do Conselho Kaaly, se reuniram no dia 3 de fevereiro em São Gabriel da Cachoeira, para uma conversa sobre o tema ” Rescrevendo o Bem-Viver Baniwa e Koripaco”, com objetivo de avaliar as ações realizadas na região do Içana em 2015 e compartilhar  informações sobre os planejamentos de ações para 2016, bem como discutir e debater temas como a importância dos conhecimentos tradicionais Baniwa e Koripako para o fortalecimento das ações e desenvolvimento de novos projetos na região do Içana.

Conhecimentos Tradicionais e científicos como base para os projetos de desenvolvimento

A apresentação de sínteses de pesquisas acadêmicas realizadas sobre os povos indígenas do Rio Negro e alguns especificamente sobre os Baniwa (e pesquisas feitas por pesquisadores externos, como Robin Wright, Luiza Garnelo  e  pesquisadores Baniwa como Gersen Luciano, Franklin Paulo, Alfredo Brazão e outros) foi feita pelo Juvencio Cardoso  ou Dzoodzo – como ele é chamado pelos Baniwa.

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Juvêncio Cardoso ou Dzoodzo fazendo exposição. Foto: Ray Benjamim

Já existem várias pesquisas acadêmicas sobre o nosso povo e de outros povos indígenas do Rio Negro, precisamos, usar as sugestões e recomendações como base das nossas discussões e debates de nossos projetos, disse Dzoodzo.  Essas pesquisas afirmam e confirmam que os conhecimentos tradicionais são fundamentais para a realização de nossos projetos de desenvolvimento, precisamos considerar estes conhecimentos quando pensarmos em algum projeto para o nosso povo, completa Dzoodzo.

André Baniwa, lembrou durante o debate que esse tem sido um dos pontos importantes considerados nos projetos desenvolvidos pela OIBI, mencionando como exemplo, a Pimenta Baniwa, que tem como base, principalmente os conhecimentos e prática dos povos Baniwa e Koripako.

A construção do projeto Bem-Viver dos Povos Baniwa e Koripaco, de acordo com o debate, deve levar em consideração os dois conhecimentos, especialmente, os conhecimentos tradicionais. “Precisamos pensar juntos e ter como base esses conhecimentos para fortalecer nossos projetos que visam o bem-viver ou viver bem nas nossas comunidades e para o nosso povo”, diz André.

Em 2012, a Organização Indígena da Bacia do Içana (OIBI), recebeu durante o V Encontro Baniwa e Coripaco, realizado na comunidade Castelo Branco, médio Içana, a missão de elaborar o Projeto Manakai do Bem-Viver Baniwa e Koripako,   que propõe o Uso Sustentável da floresta e da biodiversidade no Território Tradicional do povo Baniwa e Koripako. Na época o projeto seria apresentando ao BNDS, porém, por problemas de documentação, não foi possível ser encaminhado, apesar de o projeto ter sido elaborado.

Com início de construção do Plano de Gestão Territorial e Ambiental Baniwa e Koripaco em 2015, a ideia é aperfeiçoar o projeto elaborado em 2012, e ampliar a discussão junto com as comunidades no âmbito desse plano.

A reunião teve como tema ” Reconstrução do Bem-Viver Baniwa e Koripako”, porque já teve isso no passado, e precisamos reconstruí-la novamente, mas, dessa vez, precisamos usar os nossos conhecimentos tradicionais e apropriar os conhecimentos científicos necessários.  A elaboração do PGTA Baniwa e Koripako é uma dessas ações. Assim, queremos construir nosso projeto de Viver-Bem, para nós hoje, e para as futuras gerações.

As reuniões podem ser participadas pelos Baniwa interessados em colaborar nas discussões e debates sobre esses temas.

Agenda Içana 2016

  • Assembléia eletiva da CABC/FOIRN – 19 a 21 de Maio– realizar com apoio da FOIRN.
  • VI Encontro de Educação (como está ensino e aprendizagens dos estudantes de filhos Baniwa e Koripako? Como melhorar a formação de professores Baniwa e Koripako?) – 6 a 8 de Julho.
  • Conferência do povo Baniwa e Koripako – 12-15 outubro (Como estamos? O que temos que fazer na Organização Social Baniwa e Koripako?).
  • II Oficina de PGTA – 9 a 12 de Novembro (levantamentos de dados nas comunidades, discussão com pesquisadores indígenas e não indígenas e realização da II Oficina para sistematização dos dados trabalhados).
  • Festival de “Pimenta Baniwa” a ser iniciada na inauguração da Casa da Pimenta Baniwa Takairo na comunidade Canadá, Rio Ayari.

 

Saber manejar no presente para garantir o futuro é o desafio, apontam os Povos Baniwa e Koripaco na oficina de elaboração do PGTA do Rio Içana e Afluentes

Foi trabalhado o tema territorialidade durante a oficina. Foto: Ray Benjamim

Foi trabalhado o tema territorialidade durante a oficina. Foto: Ray Benjamim

É a primeira vez que os Baniwa e Koripaco se reunem para pensar e escrever seu futuro com base nas experiências de contato, de trabalho e desejos. Ao final da oficina ficou claro o maior desafio na atualidade é saber manejar o mundo para garantir o futuro e bem viver para às futuras gerações.

A  I Oficina de elaboração do Plano de Gestão Territorial e Ambiental da região do Içana e Afluentes, onde vivem os Baniwa e Coripaco, foi realizado entre 7 a 10 de outubro na comunidade Tunuí Cachoeira, Médio Içana.

O trabalho foi uma realização da parceria: CABC (Coordenadoria das Associações Baniwa e Coripaco), FOIRN (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro), FUNAI (Fundação Nacional do Indígena/Coordenação Regional do Rio Negro) e ISA (Instituto Socioambiental).

Foram cerca de 140 participantes, representantes das comunidades localizadas nas calhas do baixo, médio e Alto Içana e os afluntes Aiarí e Cuairaí. Entre estes, professores, estudantes, conhecedores tradicionais, mulheres e crianças.

Na abertura da oficina,  foi ressaltado que a Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI – Decreto 7.747/2012) da qual os PGTAs são instrumentos de implementação é uma conquista dos povos indígenas.

” É um instrumento muito importante para discutirmos os desafios atuais e planejar o nosso futuro, que tem como principal conteúdo ações importantes e necessárias para o nosso bem viver no nosso território” – disse Isaias Fontes, Vice Presidente da FOIRN.

A primeira atividade da oficina foi uma palestra sobre os 7 eixos da PNGATI e seus objetivos, com a proposta de ampliar o entendimento e compreensão dessa política pelos participantes. O trabalho de levantamento de desafios enfrentados pelos Baniwa e Koripaco, foi feito em grupos de trabalhos organizados por microregião do Içana (baixo Içana, Médio Içana I e II, Alto Içana Aiarí – e mais dois grupos de jovens).

Outra atividade feita foi o mapeamento das territorialidades de cada comunidade, como área de uso e áreas de uso compartilhado, que também identificou recursos florestais, pesqueiros e outros pontenciais que poderão ser aproveitados em projetos de geração de renda. As áreas de atuação e abrangência das associações de base foram identificados nos mapas.

Os temas prioritários definidos na oficina foram: Manejo de Recursos florestais e pesqueiros, Lixo e poluição, Saúde, Patrimônios Culturais, Transporte e meios de comunicação, Economia indígena e geração de renda, Proteção e promoção de Patrimônio culturais e patrimônios genéticos associados à biodiversidade e Organização social e religiosa.

Os próximos passos da construção desse plano já estar definido. Grupos de trabalhos irão atuar nas microregiões para aprofundar com as comunidades as informações e os dados levantados na oficina. E a coordenação da elaboração do plano irá sistematizar e processar os dados para a próxima oficina prevista para ano que vem.

Governança do Território Baniwa e Koripaco

André Fernando, fez uma palestra sobre o Conselho Kaali, criado em 2014 durante a V Assembleia da CABC com a proposta de ser um espaço de discussão e deliberação de assuntos estratégicos e de interesse dos povos Baniwa e Koripaco.

” O Conselho Kaali será um espaço de governança do nosso território, onde iremos discutir e definir ações prioritárias de interesse do nosso povo” – disse André, que é membro da comissão de organização e sistematização do processo de formação do Conselho Kaali.

O PGTA do Rio Içana e Afluentes ou Baniwa e Koripaco será um instrumento de planejamento e implementação das ações recomendadas pelo Conselho Kaali, que deverão ser desenvolvidas pelas associações de base de cada microregião.

O território conhecido atualmente como ” Bacia do Içana” ou ” Rio Içana e Afluentes” é  ocupado tradicionalmente pelos Baniwa e Koripaco, desde a origem em Wapuí Cachoeira (alto Aiarí) e herdado pelo próprio criador Ñapirikoli aos clãs Waliperidakenai, Hohodeni, Dzawinai e outros que fazem parte. O conhecimento sobre essa territorialidade tradicional é mantido e transmitido de geração a geração.

Atualmente, na região do Içana existem cerca de 10 associações de base, uma coordenadoria regional, associações de escola, conselheiros de saúde e entre outros. A proposta do Conselho Kaali é fortalecer essas representações.