LIXO NAS COMUNIDADES INDÍGENAS: DESAFIO DE DESTINAÇÃO DE RESÍDUOS SÓLIDOS DA BACIA DO IÇANA

Destacado

“Lixo é veneno”

“O lixo é um inimigo”

Por Alfredo Feliciano Miguel Brazão

Diretor da OIBI 2017-2020

Como chegou lixo nas comunidades

Ante de todo quero registrar uma breve história sobre a chegada dos primeiros comerciantes que passavam trocar os produtos artesanais com produtos industrializados, que não existiam ante, os materiais que os nossos avós e pais usavam nas aldeias eram todos extraídos da natureza, que se decomponham com facilidade logo depois de uso, na verdade todos se transformavam em adubos orgânicos fertilizando o solo nos lugares de plantio das plantas frutíferas.

Os primeiros produtos industrializados como latas, plásticos, pilhas e outros surgiram na década do século XVIII quando os primeiros regatões entraram nas regiões. Naquele tempo quem tinham acessos a esses materiais somente os adultos que tinham técnica de produzir os artesanatos, farinha e outros produtos que eram comprados pelos regatões. Nesse tempo era bem diferente do tempo atual, pois todos os materiais duráveis que eram adquiridos pela população sempre foram bem reaproveitados por determinado tempo, assim era difícil às comunidades notarem os desperdícios de latas, garrafas, sacos plásticos nos quintais das casas.

Início da preocupação com lixo nas comunidades

A preocupação com destinação de resíduo sólido começou a surgir na região do Içana foi a partir da década de 1990 em diante, foi quando a população começaram a ter o acesso aos programas sociais do governo como em aposentadoria, pensão, bolsa família. Alguns que tinham estudo e que tiveram empregos como professores, agente Indígenas de Saúde que são ofertados pelo governo federal, estado e município.

Aumento de lixo nas comunidades

A partir do ano 2000, com aumento de professores contratados, apesar de muito positivo na educação escolar indígena, o magistério Indígena que formou os professores, mas também trouxe a soma visivelmente a questão do lixo em muitas comunidades.

Com salário ganho possibilitou adquirir os produtos industrializadas e suas embalagens são jogadas em qualquer lugar do ambiente quando perde vida útil de uso, seja nos rios, lagos, igarapés e nas praias e na mata.

Desconhecimento sobre lixo e as propostas de cuidado com lixo

O desconhecimento sobre cada tipo de produtos que produzem lixo e que podem causar doenças que comprometam a saúde dos seres humanos, aos animais, aos peixes e plantas e for fim o ambiente em se vive é principal causa de não ter cuidado com lixo nas comunidades. Conhecimento sobre contaminação através dos lixos ainda é pouco nas comunidades, principalmente os mais velhos das comunidades que não acreditam muito nisso. Por isso é fundamental a conscientização ou educação de cuidado com lixo nas comunidades.

Em uma das oficinas de estudantes da Licenciatura Políticas Educacionais e Desenvolvimento Sustentável da UFAM do Pólo Baniwa, fizeram trabalho de mostra como o acumulo de lixo acontece nas comunidades produzidas pela população e que chamou atenção para a necessidade de se preocuparem com isso, pois o acumulo de lixos podem ser uma das causas de doenças em suas comunidades.

Os estudantes apresentaram uma proposta aos Agentes Comunitários de Saúde Indígena e equipe multidisciplinar do DSEI, que este tema deveria ser prioridade em suas pautas para orientar a população das comunidades. Os mesmos recomendaram ensinar como deveriam tratar os lixos para evitar que cause doenças e comprometa na saúde, pois isso não existia nos planos de trabalho ou não estava acontecendo nas comunidades via DSEI e sua equipe de saúde. Até a própria equipe que anda nos rios e comunidades andam jogando seus lixos em qualquer lugar. Não orientam seus motoristas para guardarem vasilhame de óleo de mistura com gasolina que eles usam nos motores. É comum chegar ao porto onde tem pólo base vê cheio de frasco de óleo de plásticos, segundo pesquisadores-estudantes de médio Içana II.

Acordo e responsabilidade de estudantes

Durante a oficina os estudantes fizeram acordo entre si e se responsabilizaram para que cada um fizessem suas palestras sobre isso em suas comunidades de origem e que tomassem iniciativa de coletas de lixos com a participação dos membros da comunidade, incluindo também escolas da comunidade, para que os conhecimentos sobre lixo pudessem avançar.

A definição do lixo!

A conclusão da oficina é que o lixo é inimigo das pessoas, das comunidades, dos rios, das florestas e de todo ser vivo, por isso é fundamental se preocupar em ter planos em como se livrar dos lixos que são inimigos da saúde. É muito importante fazer coleta seletiva de lixo como de papeis, plásticos, vidros e latas. Depois deixar esses subprodutos com certa distância das casas e longe da fonte de igarapé, longe da plantação frutífera. O lixo pode ser queimadas e depois enterradas. Estas práticas devem ser ensinadas pelos professores e pelos agentes de saúde de cada comunidade.

Em relação aos produtos tóxicos como pilhas e baterias que são de alta periculosidade, é muito importante que as comunidades se responsabilizassem em ajunta-las no recipiente separado dos outros produtos para enviar de volta a cidade, uma vez que esses produtos contêm materiais pesadas e muita química perigosa segundo a resolução da CONAMA.

Legislação e situação de tratamento no Brasil

Segundo CONAMA, o Brasil é o único país da América do Sul que regulamenta a fabricação, venda e destinação final de pilhas e baterias. Com a entrada da Resolução 257, do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), que dispõe sobre estes resíduos, em vigor desde junho de 2001, o Ibama passou a fiscalizar esses limites. Os fabricantes e importadores são os responsáveis pelo recolhimento do material e sua destinação final, o que deve ser fiscalizado pelos órgãos públicos ambientais. A Resolução estabelece que as pilhas e baterias, após o seu esgotamento energético, devem ser entregues pelos usuários aos estabelecimentos que as comercializam ou à rede de assistência técnica autorizada pelas respectivas indústrias. (REIDLER, 2002).

No Brasil, as pilhas e baterias exauridas são descartadas no lixo comum por falta de conhecimento dos riscos que representam à saúde humana e ao ambiente, ou por carência de alternativa de descarte. Esses produtos contêm metais pesados, como mercúrio, chumbo, cádmio, níquel, entre outros, potencialmente perigosos à saúde. Esses metais, sendo bio-acumulativos depositam-se no organismo, afetando suas funções orgânicas. Outras substâncias tóxicas presentes nesses produtos podem atingir e contaminar os aquíferos freáticos, comprometendo a qualidade desses meios e seu uso posterior como fontes de abastecimento de água e de produção de alimentos.

ConclusãoJaime-Foirn (8)

Para mantermos saúde em nossas comunidades e do nosso território é muito importante que cuidemos da nossa saúde, vamos usar os produtos industrializados conscientes, jogar os que não têm mais utilidade no lugar certo, não pode descuidar jogando o lixo em qualquer lugar, pois já sabemos que é prejudicial à vida.

PRESENÇA BANIWA NAS UNIVERSIDADES E SEUS DESAFIOS

Destacado

Baniwa nas universidadesFrancineia B. Fontes

Doutoranda e Mestre em Antropologia Social na UFRJ/MN

Braulina Aurora Hipamaale

Mestranda em Antropologia Social na UNB

 

Contexto de nossos direitos e desafios como povo Baniwa

É de conhecimento geral que o processo de inclusão social da diversidade étnica‐racial da população no Brasil foi iniciado no âmbito das políticas indigenistas segundo uma concepção assimilacionista. Foi através da luta pelo acesso à universidade de forma diferenciada no contexto pós‐Constituição de 1988, quando os direitos originários dos povos indígenas são reconhecidos, que a perspectiva da inclusão com respeito às diferenças deu seus primeiros passos, assumindo, posteriormente, a forma de políticas de ação afirmativa nas universidades ou cotas raciais. Porém, cada instituição adotou de forma diferente o direito de acesso da diversidade à universidade. As categorias identitárias adotadas foram, em particular, as de “baixa renda”, “negro”, “pardos” e “indígenas”.  De acordo com SILVA et al (2006) as políticas públicas voltadas para as populações indígenas estiveram pautadas por séculos pela perspectiva integracionista e tutelar, que visa se conduzir dentro de parâmetros “evolucionistas”.

Nós Medzeniakonai, diferente de outros povos indígenas do Brasil, somos um dos povos que está caminhando na iniciação na formação de profissionais, pois as políticas públicas quase não chegam as nossas comunidades.

Nos 25 anos da nossa organização social enquanto povo Baniwa, temos alcançados, programas de formação significativos, de forma que hoje temos professores falantes na nossa língua dentro das salas de aula, ensinando nossas crianças e jovens.

Mas quando olhamos para outras formações, estamos começando a nos interessar, temos professores e vários técnicos formados, mas ainda muito a desejar se queremos serviços de qualidade na área de educação, saúde e sustentabilidade na nossa região.

Numa rápida busca por parentes nas universidades, a surpresa foi grande, pois há 10 anos, não tínhamos esses dados. Vejam na no mapa.   E para nossa alegria temos jovens de várias comunidades do rio Içana e rio Ayari, em formação, perguntei suas comunidades origens e seus clãs. Poucos tiveram disponibilidade para rápida resposta, a ideia do contato é fazer rede de profissionais baniwa em formação.

Acesso a universidade públicas é desafiador, na I – Conferência dos Baniwa, realizada em Tunuí Cachoeira em 2016, recordo-me de ter socializado informação sobre o vestibular da UnB, UFScar e Cursos.

 O acesso a formação intercultural, também foi um avanço, mas necessitamos de outros profissionais, que com a implantação do campus federal no município, possamos sonhar nessa possibilidade.

Temos poucos parentes na pós-graduação, e nós mulheres somos muito pouco ainda, algo que deve ser incentivada, na época das nossas mães poucas tiveram acesso à escola, temos professoras mulheres que chegaram a se formar, por que tiveram apoio de suas famílias, como as professoras Nazária, Madalena, Marcinda, Lindalva. E nos perguntamos por que outras não conseguiram, foi por falta de oportunidade? (Seria bom fazer histórico dos homens).

Atualmente, para se manter nas universidades é possível, tem bolsa permanência do governo federal, tem PROUNI para acessar universidades particulares, mas há necessidade de ter apoio das comunidades e familiares para se sentir como parte desse projeto de formação de profissionais. Atualmente neste governo estes meios de acesso estão ameaçadas.

Pode ser que tem mais parentes nas universidades, mas desconheço quem são, talvez, podem ser nossos irmãos, primos, netos ou bisnetos de vocês, mas quando se trata de identidade nem todos se assumem como Baniwa, que é um dos grandes desafios de se reconhecer como tal, por desconhecer história de luta.

O retorno de profissionais as comunidades indígenas, é outro desafio que necessita de um olhar diferenciado ou especifico, pois na maioria das vezes, o profissional em formação se torna um estranho para seu povo ou comunidade, a parti de momento que não mantém vinculo e que as adaptações são necessárias, para dar oportunidade de recebê-los de volta.

Nossa presença nas universidades

A presença indígena nas universidades é um assunto que rende muitas discussões e estudos. Suscita “esperanças” em várias áreas de conhecimentos. Avesso dessa política, a tradição intelectual indígena, de ver, de pensar, de organizar, de enxergar o mundo, de relacionar, perceber as mudanças de tempo e sociais, estão ancorados numa outra epistemologia que não é aquela que aprendemos nas escolas e nas universidades convencionais.

Da mesma forma como a Ciência, os sistemas de conhecimentos indígenas são tão complexos, e tem como fio condutores a cosmologia e a cosmopolítica, que são transmitidos de maneira organizados como teorias de conhecimento, no espaço e no tempo específico, às crianças e jovens indígenas direta e indiretamente pelos seus pais, mães, avos.

Apesar dessa carga de conhecimentos aprendidos no seio de sua sociedade, nós estudantes indígenas no universo da universidade, maiorias das vezes somos tratados como sujeitos de “tábula rasa”, que estão sempre no pólo de aprendizes, carentes de conceitos e sem epistemologia própria.

O ponto de partida é: existe a possiblidade de “transgressão” de alunos indígenas para construção de pensamento “nativo”, mesmo estando na estrutura de universidade? E, será possível aprender a filosofia indígena, utilizando os métodos científicos como instrumentos de sistematização dos conhecimentos indígenas?

Para começar, nós indígenas temos que estar ciente de que a escola e a universidade não são espaços próprios de produção de pensamento e práticas indígenas. Sendo assim, não formará operadores do pensamento indígena como os (pajés), que são especialidades vitais para as sociedades indígenas, que possui o papel de produzir, acumular, transmitir e disseminar conhecimentos e formar novos especialistas, como é o caso do Rio Negro.

Por outro lado, a universidade pode oportunizar a pensar o pensamento indígena, na medida em que os mecanismos e métodos científicos podem servir como instrumentos para compreender as cosmologias e produzir os conceitos propriamente “nativos” possibilitando um diálogo simétrico entre os modelos de conhecimentos. Mas, para isso acontecer é necessário, nós (indígenas), ter bastante clareza e consciência de que o simples ingresso na universidade, não assegura colocar nossa epistemologia, nossas ideias em pauta na sala de aula e nos Programas de Pós-Graduação.

A natureza da epistemologia indígena

Existe interesse muito grande de especialistas indígenas (pajés) traduzirem os conhecimentos através de escrita, com esforço enorme de traduzir as cosmologias ou ontologias. A Coleção de narradores do Rio Negro e a Queda do Céu, são exemplos de obras que expõe o sistema de conhecimento indígena via escrita.

O desejo dos autores parece ser destacar o pensamento e sua complexidade, isto é, as bases filosóficos e ontológicos dos conhecimentos indígenas. O fio condutor é considerar que o cosmo é habitado por humanos, onde estão conectados num sistema de relação de interdependência. Cada categoria de humanos, tem seu tipo específico de conhecimento, de perceber o mundo, de intervir entre si, e atuar indistintamente.

As relações entre os humanos e os humanos de diferentes domínios do cosmo se fundamenta no intercâmbio recíproco de vitalidade. Um dos ingredientes dessa relação é o conflito. Se o intercâmbio for violado, pode provocar vingança por uma das partes, causando mortes. Para isso, os especialistas (pajés) aparecem como os principais intermediadores de comunicação entre diferentes humanos de diferentes espaços e domínios/ambientes do cosmo. A construção de uma relação cosmo política é uma necessidade imprescindível do ponto de vista desses autores.

Na mesma linha de interesse, muitos estudantes indígenas pesquisadores, já desenvolveram estudos sobre suas cosmologias, tomando seus pais, ou membros do seu grupo social como informantes. Mas percebe-se que a produção de dissertações ou teses, muitos deles estão balizadas pelos conceitos de sociedade, cultura, religião, identidade, magia, sistema de parentescos, que são noções compartilhadas com a academia, a exemplo de pesquisadores não nativos.

Reinventando os métodos científicos, é possível calcar das análises mitologias aos conceitos e categorias indígenas produzindo pensamento com linguagem capaz de abrir um diálogo simétrico com a ciência. Assim a Universidade pode oportuniza pensar o pensamento.

Mas, para universidade, isso implica repensar o modelo e suas estruturas, isto é, não somente pensar no sentido de “facilitar” a entrada de indígenas, mas de criar mecanismos que estimule melhor “explorar” o pensamento indígena. Tal esforço significa formar jovens estudantes indígenas capazes de refletir seus pensamentos, sobretudo os programas de Pós-graduação.

Os especialistas indígenas são eternos pensadores, sentados individualmente ou coletiva, analisam as alterações sociais, conflitos, intrigas, discussões desintegrações dos grupos, saídas das famílias do lugar, mudanças nos sistemas de casamentos. Analisam as influências externas como músicas, educação, empregos, influência de bebida alcoólicas e seus efeitos. Desintegração de sistema de tratamentos pessoais e nominais. Apontam o desinteresse dos jovens indígenas em aprender seus próprios conhecimentos. Analisam as mudanças de tempo, do desiquilíbrio de bio-indicadores, do excesso de chuva, da cheia, excesso da seca, escassez de peixes e da caça. Excesso de raios e trovoadas, dos surtos de doenças, das picadas de cobras, dos acidentes fatais.  Preocupados, entram em ação colocando em operação os seus conhecimentos de benzimentos para mitigar os problemas. Enfim, hoje as universidades estão dispostas a discutir e nos ouvir mais, e assim pensar coletivamente o que nós queremos.

Consideração

O resultado da interação entre pesquisadores e pesquisados, num exercício de reflexividade mostrou que a natureza dos conhecimentos, pertencem aos domínios distintos. Isto significa que para traduzir os conhecimentos indígenas é necessário buscar outros termos, e descolonizar o pensamento para melhor mergulhar nos nossos conhecimentos, distanciando dos conceitos euro-ameríndios.

Enfim, temos que assumir que nós, estudantes indígenas, o que estamos fazendo dentro das universidades não é mesmo para nos formar especialistas ao nosso modelo tradicional. O que estamos fazendo é outra coisa, mas não podemos cair nas armadilhas de traduzir nossos conhecimentos de forma simplório e ao reducionismo cientifico. Creio que traduzir as palavras, seja diferente de traduzir o pensamento.

A Conferência Baniwa e Koripako sobre Educação e Organização Social do Bem Viver no noroeste da Amazônia Brasileira

A Conferência Baniwa e Koripako sobre Educação e Organização Social vai acontecer na comunidade Tunui Cachoeira entre 21 a 24 de Setembro de 2016, na Terra Indígena Alto Rio Negro no município de São Gabriel da Cachoeira, Estado do Amazonas. Os Baniwa e Koripakos estão organizados 83 comunidades e sítios, 11 associações, uma coordenadoria filiadas a Federação das Organizações indígenas do Rio Negro, pertencentes a família linguística Aruak, são mais 6.200 pessoas no Brasil.

1 – Bem-Viver: reorganização social, patrimônio cultural, gestão territorial e ambiental
Porque Conferência do povo Baniwa e Koripako? Esta é uma nomenclatura de evento com que se pretende diferenciar-se dos demais que vem se realizando como assembléias, encontros, seminários e oficinas nos últimos três décadas. É uma conferência autônoma para marcar que vai tratar de uma decisão do povo, neste caso, dos povos Baniwa e Koripako segundo Convenção 169 da OIT. Refere-se também para analisar o tempo, o processo que estes povos vêm desenvolvendo desde 1984, ou seja, nos últimos 32 anos no Rio Negro. O que aconteceu nesse período, ou melhor, o que o povo Baniwa e Koripako conquistou neste período?
A conferência vai avaliar como vem sendo reconstrução do seu Bem-Viver depois de contato com homens Brancos. O Bem Viver culturalmente ou tradicionalmente esse termo tem sido usado constantemente em suas assembléias, encontros, oficinas e etc se referindo aos seus projetos nos últimos tempos, mas também ela é de uso diário em suas vidas e em busca dela tem passado por meio dos seus projetos, atividades, programa e na organização social que vem desde primeira participação da I Assembléia Geral dos Povos Indígenas do rio Negro em 1984.
A criação da primeira associação foi em 1989, extinta em 1999. A segunda associação foi criada em 1992, a partir da qual se organizou mais comunidades em associações. Em 2001 fez se primeira avaliação, avaliava se valia apena estar organizados em associação que foi bastante positiva. No ano de 2002 criou-se uma coordenadoria para melhorar trabalhos das associações. No ano 2014 criou-se Conselho Baniwa e Koripako Kaaly para cuidar da política e gestão do Patrimônio Cultural e forçou entendimento para que este ano em maio de 2016 aprovasse a criação de uma organização representativa.
Com a finalidade de efetivar esta decisão, esta conferência vai discutir e aprovar uma organização representativa do povo Baniwa e Koripako, com nome e eleger sua diretoria executiva que vai elaborar seu estatuto a ser discutido e aprovado em sua primeira assembléia geral. Por isso chamamos de reorganização social Baniwa e Koripako, por que apenas vai fortalecer as associações já existentes envolvendo-as junto nos assuntos maiores de interesse e objetivos do povo.
Esta organização representativa é muito importante para enfrentar os desafios do Patrimônio Cultural, desafios do desenvolvimento sustentável, desafios na implementação do Plano de Gestão Territorial e Ambiental do Içana e afluentes em elaboração. Ela será fundamental para discutir e definir as estratégias de sustentabilidade do povo Baniwa e Koripako.
Além disso, o protocolo de Consulta de consentimento prévio e informado será elaborado através desta organização representativa do povo Baniwa e Koripako como forma de proteção e garantir o bem-viver. Resolverá o principal problema – quem decide pelo povo Baniwa e Koripako? Esta será forma organizada e unificada de decisão das associações e comunidades que em conjunto representará decisões coletivas do povo Baniwa e Koripako.
A organização representativa do povo vem sendo discutido desde ano de 2011 na assembléia na comunidade Tunui Cachoeira. Tem sido a proposta a ser desenvolvido. Depois no ano seguinte na comunidade Castelo Branco no ano de 2012. Na oportunidade de Criação do Conselho também foi lembrado desta necessidade em 2014. Finalmente agora em Maio de 2016 foi aprovado na assembléia para criar esta associação representativa do povo Baniwa e Koripako sob entendimento da garantia da governança sobre território do Içana e afluentes considerando desafios em Patrimônio Cultural, Plano de Gestão Territorial e Ambiental, desenvolvimento sustentável, sustentabilidade, alternativas econômicas, educação, saúde e de modo geral políticas públicas.

2 – Bem-Viver: ensino e aprendizagem nas escolas Baniwa e Koripako
Na década de 70 e 80 o povo Baniwa e Koripako sofreu invasão de suas terras com falsas promessas e exploração de suas riquezas principalmente nos garimpos de ouro que alterou negativamente a vida das comunidades no Içana e afluentes.
Contra invasão e seus impactos negativo, o povo Baniwa através de seus representantes na I Assembléia Geral dos Povos Indígenas do Rio Negro definiram a escolaridade do seu povo como meta em longo prazo a ser perseguido com objetivo de criar diálogo com não indígenas e não serem mais enganado. Esta decisão foi importante, pois na época em comparação com as outras regiões do Rio Negro que já tinham escolaridade avançada e os Baniwa e Koripako não tinham praticamente nada de escolaridade que fizesse ter entendimento melhor da sociedade nacional.
Foi a partir desta decisão política que se lutou para ter mais escolas nas comunidades Baniwa e Koripako, levar professores não falantes da língua Baniwa e Koripako de outras etnias a fim de lecionar nestas escolas. Mas não eram suficientes, aos poucos foram se organizando para conhecer melhor seus direitos quando se tomou decisão política de criar a sua própria escola em 1997. A escola própria começou a funcionar no ano de 2000. Este teve impacto político muito grande no poder público de modo que acelerou mais criação de mais escolas nas comunidades, escolas de ensino fundamental completo, ensino médio com anexos e na atualidade tem mais 4 escolas de ensino médio em processo de busca de reconhecimento no Estado do Amazonas.
A luta do povo Baniwa e Koripako na escolaridade teve virada junto com o novo milênio. Pela primeira vez se tinha professores em magistério indígena, daí vem tendo mais magistério II e III. Atualmente já se tem professores com graduação em cursos interculturais, outros em formação, precisando ainda formação no mestrado e doutorado, além de anualmente ter formaturas de estudantes no ensino fundamental completo e no ensino médio a partir do ano de 2012.
Nos lugares de professores que vinham sendo de outras etnias não falantes Baniwa e Koripako hoje são ocupadas pelos professores das próprias comunidades.
Quando se definiu adotar a escolaridade como um dos que podia ajudar o povo em sua defesa, garantia de melhoria de vida, viver bem, deveria ter sido a considerar os conhecimentos interculturais, que a escola indígena fosse feita na realidade de vida das comunidades que significava em linguagem oficial de escolas profissionalizantes.
A realização desta I Conferencia da educação e organização social do Povo Baniwa e Koripako são muito importantes porque além de reunir diversas personalidades de lideranças de associações, professores, técnicos em agente comunitário de saúde indígena, lideranças comunitárias, conhecedores da tradição e da cultura, mulheres manejadora do sistema agrícola tradicional Baniwa e Koripako Kaaly, vai levar a decisão política do povo reunido sobre novas diretrizes gerais para educação escolar indígena Baniwa e Koripako que promova melhoria e aperfeiçoamento de ensino e aprendizagem de estudantes nas comunidades e nas Escolas. Vai também colocar em prática a decisão da assembléia de Maio de 2016 em criar a organização representativa do povo Baniwa e Koripako.

Programação da I Conferência Baniwa e Koripako sobre educação e organização social para o Bem-Viver
21 a 24 de Setembro de 2016 na comunidade Tunui Cachoeira – Médio Içana

20 de Setembro de 2016
– chegada de participantes na comunidade Tunui Cachoeira;
– abertura a noite com apresentações culturais e discursos sobre expectativas;

21 de Setembro de 2016
Manhã
Palestra sobre temática do Bem-viver, cultura e o patrimônio cultural Baniwa e Koripako.
a) Palestrantes: André Baniwa, Isaias Fontes, Dzoodzo, Thiago Pacheco, Francineia e Madalena;
b) Debatedores Jovens – Dario Casimiro, Plinio Marcos, Genilton Apolinario, Maria Lilane Fontes;
c) Debatedores Idosos da tradição – Fernando Jose, Julio Cardoso, Roberto Paiva, Pedro Francisco, Celestino Benjamim, Chico Davila.
d) Debates em públicos (questionamentos e esclarecimentos).

Almoço

Tarde
– GT para definição dos conceitos Baniwa e Koripako;
– Exposição dos trabalhos de Gts e a sua discussão de consenso;
– Resumo e aprovação dos conceitos

22 de Setembro de 2016
Manhã
Palestras sobre processo histórico da luta
– Os últimos 32 anos de Educação Baniwa e Koripako processo próprio de aprendizagem na educação escolar indígena.
Palestrantes: Andre Baniwa, Dzoodzo
Debatedores – Daniel Benjamim, Isaias Fontes, Horipio Pacheco, Madalena Paiva.

– Palestra sobre experiências Baniwa e Koripako em Desenvolvimento Local Sustentável e empreendedorismo;
Palestrantes: Dzoodzo, Joaozinho, Orlandino Fontes, Genilton Apolinario;
Debatedores: Isaias Fontes, Tadeu Garrido, Ronaldo Apolinario.

– Apresentação dos projetos de Pesquisa de Estudantes e proposta de trabalho da UNIB junto ao povo Baniwa (Estudantes Baniwa e professores UNB);

Tarde
– Relato de experiências de gestão escolar Baniwa e Koripako e sobre ensino e aprendizagem nas escolas (ensino fundamental completo e ensino médio – salas anexos); (Escola Pamãali, Escola Kayaakapali, Escola Eeno Hiepole, Escola Maadzero, Escola Kariama, Escola Barekeniwa)
– Palestra sobre panorama das escolas e ensino nas microrregiões de acordo com atuação dos APIs (Professor API Eliaque Dionisio, Dario Casimiro, Augusto Garcia, Horipio Pacheco, Hilario Fontes e Jaime Lopes);
– Organizar GTs para identificação de avanços, dificuldades e problemas enfrentada na educação escolar Baniwa e Koriako e elaboração das propostas para governos e organização própria.

23 de Setembro de 2016
Manhã
– Trabalho de Grupos de discussão das propostas de diretrizes gerais para escolas Baniwa e Koripako; gestão de educação próprio, do município e do Estado, e; reivindicações para melhoria da educação escolar indígena Baniwa e Koripako com Governo Municipal e com Governo do Estado do Amazonas;
– Apresentação sistematizada dos resultados dos Gts e discussão em plenário;

Almoço

Tarde
– Apresentação do documento final da Conferencia sobre educação escolar Baniwa e Koripako;
– Discussão e melhoria do documento;
– Leitura de documento traduzido em língua Baniwa, Koripako, Ñegatu/Nhengatu/Lingua Geral, Espanhol e Portuguesa
– Aprovação do documento final e assinatura.

24 de Setembro de 2016
Manhã
– Palestra sobre proposta de reorganização do povo Baniwa e Koripako aprovado na assembleia da Cabc
Palestrantes: André Baniwa, Isaias Fontes, Dzoodzo;
Debatedores: os participantes

Almoço

Trade
– Apresentação do rascunho da proposta de estatuto.
– Gts para discussão, melhoria e aprovação da proposta.
– Eleição da Diretoria da organização representativa do povo Baniwa e Koripako;

– Noite: encerramento final com noite cultural

Por André Baniwa – Presidente da Organização Indígena da Bacia do Içana (OIBI)

Educação Escolar: Criança Baniwa se acidenta em carteira escolar no Rio Ayarí

Escolar de Canadã

Carta elaborada pela VI Assembleia Geral da Coordenadoria das Associações Baniwa e Coripaco – CABC sobre a situação e precariedade das estruturas físicas das escolas nas comunidades na região do Içana.

_____________________

Nós representantes dos povos Baniwa e Koripaco, reunidos na VI Assembleia Geral sub-regional Eletiva do Içana e afluentes, ocorrida entre os 19 a 21 de maio de 2016, na comunidade de Assunção do Içana, somando um total de 260 pessoas entre lideranças de associações, delegados indicados pelas comunidades e demais participantes de várias categorias, vimos através deste manifestar a nossa insatisfação quanto aos descasos da Secretaria Municipal de Educação de São Gabriel da Cachoeira, quanto ao atendimento da Educação Escolar Indígena nas comunidades indígenas da região do rio Içana.

Os relatos de professores e lideranças apresentados na assembleia demonstrou notadamente que as escolas das comunidades apresentam-se com estruturas comprometidas, não se tem prédios escolares, precisa-se de novas construções, reformas e ampliações. Embora o papel das comunidades não seja de construir prédios das escolas, com o propósito de manter em funcionamento as atividades escolares nas comunidades, os comunitários juntamente com a escola constroem espaços para que os estudantes possam estudar em ambientes que possibilite a sua formação da forma como deveria ser realizada pela SEMEC. Mais uma vez ressaltamos que isso não é de responsabilidade da comunidade e sim do poder público.

Além da infraestrutura inadequada, existe atraso na entrega de materiais de expedientes, materiais didáticos e merenda escolar. A razão da nossa insatisfação se deve também pelas escolas da região do rio Içana, não ter recebido até a presente data, nenhum material didático e merenda escolar. Além disso, neste ano de 2016 a cota de gasolina do Programa Nacional de Assistência ao Transporte Escolar (PNAT) não foi repassado, comprometendo o deslocamento dos estudantes das suas comunidades até as escolas onde frequentam as aulas. Associado a essas problemáticas afirmamos que as escolas não têm recebido fardamento escolar, kits de cozinha, carteiras escolares entre outros.

Com relação às carteiras escolares, informamos que a falta destes são parte da maioria das reclamações dos comunitários e àqueles que se encontram nas poucas escolas que encontram na região, não estão em condições de uso. O caso mais grave aconteceu na Escola Municipal Indígena Tiradentes, onde a criança se acidentou por cima do parafuso que se encontrava exposto na parte do tablado que servia de apoio do caderno (foto acima).

Diante do exposto, encaminhamos para V. Sa esta carta para que sejam tomadas as devidas providencias.

_____________

Educacao_noIcana

Prédio Escolar da comunidade Uaupuí Cachoeira – Rio Ayarí

20160513_083001

Coordenador da Escola Municipal Tiradentes, com recursos próprios e com ajuda da comunidade faz cadeiras para os estudantes.