PRESENÇA BANIWA NAS UNIVERSIDADES E SEUS DESAFIOS

Baniwa nas universidadesFrancineia B. Fontes

Doutoranda e Mestre em Antropologia Social na UFRJ/MN

Braulina Aurora Hipamaale

Mestranda em Antropologia Social na UNB

 

Contexto de nossos direitos e desafios como povo Baniwa

É de conhecimento geral que o processo de inclusão social da diversidade étnica‐racial da população no Brasil foi iniciado no âmbito das políticas indigenistas segundo uma concepção assimilacionista. Foi através da luta pelo acesso à universidade de forma diferenciada no contexto pós‐Constituição de 1988, quando os direitos originários dos povos indígenas são reconhecidos, que a perspectiva da inclusão com respeito às diferenças deu seus primeiros passos, assumindo, posteriormente, a forma de políticas de ação afirmativa nas universidades ou cotas raciais. Porém, cada instituição adotou de forma diferente o direito de acesso da diversidade à universidade. As categorias identitárias adotadas foram, em particular, as de “baixa renda”, “negro”, “pardos” e “indígenas”.  De acordo com SILVA et al (2006) as políticas públicas voltadas para as populações indígenas estiveram pautadas por séculos pela perspectiva integracionista e tutelar, que visa se conduzir dentro de parâmetros “evolucionistas”.

Nós Medzeniakonai, diferente de outros povos indígenas do Brasil, somos um dos povos que está caminhando na iniciação na formação de profissionais, pois as políticas públicas quase não chegam as nossas comunidades.

Nos 25 anos da nossa organização social enquanto povo Baniwa, temos alcançados, programas de formação significativos, de forma que hoje temos professores falantes na nossa língua dentro das salas de aula, ensinando nossas crianças e jovens.

Mas quando olhamos para outras formações, estamos começando a nos interessar, temos professores e vários técnicos formados, mas ainda muito a desejar se queremos serviços de qualidade na área de educação, saúde e sustentabilidade na nossa região.

Numa rápida busca por parentes nas universidades, a surpresa foi grande, pois há 10 anos, não tínhamos esses dados. Vejam na no mapa.   E para nossa alegria temos jovens de várias comunidades do rio Içana e rio Ayari, em formação, perguntei suas comunidades origens e seus clãs. Poucos tiveram disponibilidade para rápida resposta, a ideia do contato é fazer rede de profissionais baniwa em formação.

Acesso a universidade públicas é desafiador, na I – Conferência dos Baniwa, realizada em Tunuí Cachoeira em 2016, recordo-me de ter socializado informação sobre o vestibular da UnB, UFScar e Cursos.

 O acesso a formação intercultural, também foi um avanço, mas necessitamos de outros profissionais, que com a implantação do campus federal no município, possamos sonhar nessa possibilidade.

Temos poucos parentes na pós-graduação, e nós mulheres somos muito pouco ainda, algo que deve ser incentivada, na época das nossas mães poucas tiveram acesso à escola, temos professoras mulheres que chegaram a se formar, por que tiveram apoio de suas famílias, como as professoras Nazária, Madalena, Marcinda, Lindalva. E nos perguntamos por que outras não conseguiram, foi por falta de oportunidade? (Seria bom fazer histórico dos homens).

Atualmente, para se manter nas universidades é possível, tem bolsa permanência do governo federal, tem PROUNI para acessar universidades particulares, mas há necessidade de ter apoio das comunidades e familiares para se sentir como parte desse projeto de formação de profissionais. Atualmente neste governo estes meios de acesso estão ameaçadas.

Pode ser que tem mais parentes nas universidades, mas desconheço quem são, talvez, podem ser nossos irmãos, primos, netos ou bisnetos de vocês, mas quando se trata de identidade nem todos se assumem como Baniwa, que é um dos grandes desafios de se reconhecer como tal, por desconhecer história de luta.

O retorno de profissionais as comunidades indígenas, é outro desafio que necessita de um olhar diferenciado ou especifico, pois na maioria das vezes, o profissional em formação se torna um estranho para seu povo ou comunidade, a parti de momento que não mantém vinculo e que as adaptações são necessárias, para dar oportunidade de recebê-los de volta.

Nossa presença nas universidades

A presença indígena nas universidades é um assunto que rende muitas discussões e estudos. Suscita “esperanças” em várias áreas de conhecimentos. Avesso dessa política, a tradição intelectual indígena, de ver, de pensar, de organizar, de enxergar o mundo, de relacionar, perceber as mudanças de tempo e sociais, estão ancorados numa outra epistemologia que não é aquela que aprendemos nas escolas e nas universidades convencionais.

Da mesma forma como a Ciência, os sistemas de conhecimentos indígenas são tão complexos, e tem como fio condutores a cosmologia e a cosmopolítica, que são transmitidos de maneira organizados como teorias de conhecimento, no espaço e no tempo específico, às crianças e jovens indígenas direta e indiretamente pelos seus pais, mães, avos.

Apesar dessa carga de conhecimentos aprendidos no seio de sua sociedade, nós estudantes indígenas no universo da universidade, maiorias das vezes somos tratados como sujeitos de “tábula rasa”, que estão sempre no pólo de aprendizes, carentes de conceitos e sem epistemologia própria.

O ponto de partida é: existe a possiblidade de “transgressão” de alunos indígenas para construção de pensamento “nativo”, mesmo estando na estrutura de universidade? E, será possível aprender a filosofia indígena, utilizando os métodos científicos como instrumentos de sistematização dos conhecimentos indígenas?

Para começar, nós indígenas temos que estar ciente de que a escola e a universidade não são espaços próprios de produção de pensamento e práticas indígenas. Sendo assim, não formará operadores do pensamento indígena como os (pajés), que são especialidades vitais para as sociedades indígenas, que possui o papel de produzir, acumular, transmitir e disseminar conhecimentos e formar novos especialistas, como é o caso do Rio Negro.

Por outro lado, a universidade pode oportunizar a pensar o pensamento indígena, na medida em que os mecanismos e métodos científicos podem servir como instrumentos para compreender as cosmologias e produzir os conceitos propriamente “nativos” possibilitando um diálogo simétrico entre os modelos de conhecimentos. Mas, para isso acontecer é necessário, nós (indígenas), ter bastante clareza e consciência de que o simples ingresso na universidade, não assegura colocar nossa epistemologia, nossas ideias em pauta na sala de aula e nos Programas de Pós-Graduação.

A natureza da epistemologia indígena

Existe interesse muito grande de especialistas indígenas (pajés) traduzirem os conhecimentos através de escrita, com esforço enorme de traduzir as cosmologias ou ontologias. A Coleção de narradores do Rio Negro e a Queda do Céu, são exemplos de obras que expõe o sistema de conhecimento indígena via escrita.

O desejo dos autores parece ser destacar o pensamento e sua complexidade, isto é, as bases filosóficos e ontológicos dos conhecimentos indígenas. O fio condutor é considerar que o cosmo é habitado por humanos, onde estão conectados num sistema de relação de interdependência. Cada categoria de humanos, tem seu tipo específico de conhecimento, de perceber o mundo, de intervir entre si, e atuar indistintamente.

As relações entre os humanos e os humanos de diferentes domínios do cosmo se fundamenta no intercâmbio recíproco de vitalidade. Um dos ingredientes dessa relação é o conflito. Se o intercâmbio for violado, pode provocar vingança por uma das partes, causando mortes. Para isso, os especialistas (pajés) aparecem como os principais intermediadores de comunicação entre diferentes humanos de diferentes espaços e domínios/ambientes do cosmo. A construção de uma relação cosmo política é uma necessidade imprescindível do ponto de vista desses autores.

Na mesma linha de interesse, muitos estudantes indígenas pesquisadores, já desenvolveram estudos sobre suas cosmologias, tomando seus pais, ou membros do seu grupo social como informantes. Mas percebe-se que a produção de dissertações ou teses, muitos deles estão balizadas pelos conceitos de sociedade, cultura, religião, identidade, magia, sistema de parentescos, que são noções compartilhadas com a academia, a exemplo de pesquisadores não nativos.

Reinventando os métodos científicos, é possível calcar das análises mitologias aos conceitos e categorias indígenas produzindo pensamento com linguagem capaz de abrir um diálogo simétrico com a ciência. Assim a Universidade pode oportuniza pensar o pensamento.

Mas, para universidade, isso implica repensar o modelo e suas estruturas, isto é, não somente pensar no sentido de “facilitar” a entrada de indígenas, mas de criar mecanismos que estimule melhor “explorar” o pensamento indígena. Tal esforço significa formar jovens estudantes indígenas capazes de refletir seus pensamentos, sobretudo os programas de Pós-graduação.

Os especialistas indígenas são eternos pensadores, sentados individualmente ou coletiva, analisam as alterações sociais, conflitos, intrigas, discussões desintegrações dos grupos, saídas das famílias do lugar, mudanças nos sistemas de casamentos. Analisam as influências externas como músicas, educação, empregos, influência de bebida alcoólicas e seus efeitos. Desintegração de sistema de tratamentos pessoais e nominais. Apontam o desinteresse dos jovens indígenas em aprender seus próprios conhecimentos. Analisam as mudanças de tempo, do desiquilíbrio de bio-indicadores, do excesso de chuva, da cheia, excesso da seca, escassez de peixes e da caça. Excesso de raios e trovoadas, dos surtos de doenças, das picadas de cobras, dos acidentes fatais.  Preocupados, entram em ação colocando em operação os seus conhecimentos de benzimentos para mitigar os problemas. Enfim, hoje as universidades estão dispostas a discutir e nos ouvir mais, e assim pensar coletivamente o que nós queremos.

Consideração

O resultado da interação entre pesquisadores e pesquisados, num exercício de reflexividade mostrou que a natureza dos conhecimentos, pertencem aos domínios distintos. Isto significa que para traduzir os conhecimentos indígenas é necessário buscar outros termos, e descolonizar o pensamento para melhor mergulhar nos nossos conhecimentos, distanciando dos conceitos euro-ameríndios.

Enfim, temos que assumir que nós, estudantes indígenas, o que estamos fazendo dentro das universidades não é mesmo para nos formar especialistas ao nosso modelo tradicional. O que estamos fazendo é outra coisa, mas não podemos cair nas armadilhas de traduzir nossos conhecimentos de forma simplório e ao reducionismo cientifico. Creio que traduzir as palavras, seja diferente de traduzir o pensamento.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s