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Arte Baniwa, Baniwa e Coripaco, Direitos Indígenas, Povos Indígenas, Relação dos indíos com a terra

A relação dos povos indígenas com a terra

Por André Baniwa*

André Baniwa petroglifos do seu clã

André Baniwa – petroglifos do seu clã, no Rio Içana, Terra Indígena Alto Rio Negro/AM. 

A terra para indígena é uma parte de um complexo e completo mundo, hekoapi em Baniwa. A terra é a parte central, metade, do meio do mundo. Para cima da terra tem muitas outras camadas (céus), apakomanai em Baniwa, iarodattinai, lugares de outras vidas, lugares de almas e espíritos de animais, animais como pássaros, macacos, eenonai e outros. A última, acima do sol é do criador do mundo e da terra, ninguém pode vê-lo, somente escuta-lo. Para baixo da terra existe outra camada, Wapinakoa em Baniwa, lugar de ossos dos mortos humanos, talvez inferno.

A terra é de onde os indígenas têm conhecimentos e se relaciona com outras camadas ou céus do mundo tanto para cima e para baixo há milênios.

Da terra os povos nascem, por exemplo, o povo Baniwa, nasce da terra, até hoje existe um lugar chamado de “Hiipana”, eeno hiepolekoa, umbigo do mundo, lá tem uma vagina na cachoeira, de pedra, de onde surgiu, ou nasceu, a humanidade e especificamente o povo Baniwa, seus clãs, distribuição de seus territórios naquela região. Foi daqui que se espalhou a humanidade para lugares distantes, diferentes e diversas partes do mundo.

Por ser assim, nascer da terra, os povos indígenas se relaciona com a terra como “mãe”. E a mãe cuida dos filhos desde concepção, desde nascimento, cuida do crescimento, cuida na vida adulta, cuida durante a velhice quando isso acontece e cuida novamente quando se chega ao final da vida, ao voltar novamente para dentro da terra.

Os povos indígenas tem uma relação de muito respeito com a terra por causa disso. Os que não têm mais esse respeito com a terra por que aprendeu de pessoas estranhas que chegaram aqui no Brasil, pois isto não é da sua cultura e nem da sua tradição milenar.

Os povos indígenas tem uma relação de muito respeito com a terra por causa disso. Os que não têm mais esse respeito com a terra por que aprendeu de pessoas estranhas que chegaram aqui no Brasil, pois isto não é da sua cultura e nem da sua tradição milenar.

Existe na cultura Baniwa que explica isso, por exemplo, na criação do mundo havia disputa entre seres vivos em relação ao quem seriam humanos e animais. E o nosso herói Ñapirikoli conquistou o nosso direito de sermos “humanos”, newikinai em Baniwa, outros como “iitsirinai”, animais. Mas eles, animais, são como nós, pessoas em espíritos, ambos não podem se enxergar entre si como humanos, quando isso acontece, provoca doenças, conflitos.

Na terra dos povos indígenas existem muitos viventes diversos com diferentes funções que equilibra e maneja um sistema de vida incluindo humanos e animais. Muitos subsistemas macros e micros ajudam exemplificar claramente isso, por exemplo, uma serra, uma montanha, pedra, cachoeira, morro, lago e etc são lugares de viventes responsáveis pela reprodução segundo as espécies de animais, peixes e outros seres fundamentais.

Estes lugares têm conexões entre si, tem caminhos entre si, são mapeados e reconhecidos pelos povos indígenas, fazendo parte do seu sistema de manejo tradicional para sua segurança alimentar, mas que a religião, capitalismo e Estado Nacional irresponsavelmente detonaram como os Americanos detonaram o Japão em Hiroshima e Nagasaki em 1945 na Segunda Guerra Mundial, só que aqui no Brasil através de crenças impostas sobre os povos indígenas e agora em muitos lugares tornaram-se escassos, consequências de contato, prejuízo aos povos indígenas em suas terras.

As terras indígenas não são aquelas que foram conquistadas através de guerras de dominação sobre os outros. As terras indígenas são aquelas que foram herdadas pelo ser criador do mundo e da terra

As terras indígenas não são aquelas que foram conquistadas através de guerras de dominação sobre os outros. As terras indígenas são aquelas que foram herdadas pelo ser criador do mundo e da terra. O Ñapirikoli que veio habitar a terra organizou e distribuíram as terras segundo clã do povo Baniwa, lá você encontra nas pedras em formas de desenhos (petróglifos) as marcas de cada clã no início ao fim de um território entre si, que forma tradicionalmente território maior do povo Baniwa e Koripako hoje em dia, dentro da Terra Indígena Alto Rio Negro demarcado e homologado oficialmente pelo governo federal em 1997 e 1998.

A América era toda terra indígena, o Brasil era toda terra indígena, todos os estados e municípios no Brasil eram todas terras indígenas. Mas depois mais de 500 anos de contato restam hoje apenas 13% do território nacional para garantir o seu ser, mas tem mais de 20% dos brasileiros representados nas instancias de Poder do Estado Brasileiro lutando para acabarem estes direitos de demarcar terras indígenas, retirar direitos sobre as terras indígenas garantidos na Constituição de 1988.

Os direitos indígenas originários sobre suas terras é sim, verdade. E é assim mesmo que tem que ser, pelo menos tenha respeito aos habitantes anteriores a esta terra hoje chamado Brasil.

A terra tem sido ameaçada pelo homem sempre, desde origem da humanidade. Hoje a consequência irresponsável da humanidade, dos cientistas, mercado e dos governos no mundo está vindo como mudanças climáticas como reação da natureza contração ação do homem predador inclusive sobre outros diferentes humanos sem culpa.

Ninguém, mas ninguém escapará da vingança da natureza que estão também sendo afetados pelas mudanças climáticas. Apesar deste anuncio apocalíptico ao mundo, aos homens das terras, se fazem de surdo, se fazem de que está tudo bem, ai que está o perigo, segundo profecia do povo Baniwa, neste momento muito cuidado, esse erro tem consequência, que é o fim dos seres viventes na terra. E nascerão outros depois disso?

André Baniwa é Presidente da Organização Indígena da Bacia do Içana (OIBI)  na gestão 2017-2020 e Auxiliar Técnico em Desenvolvimento e Pesquisa Socioambiental (ISA-PRN).

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